A Palavra Doutor

O estabelecimento de relações entre a lingüística e a biologia, através da comparação de fenômenos que se processam em uma e outra ciência, foi muito do gosto do século de oitocentos, influencia talvez da voga em que anda vam as teorias evolucionistas. Entretanto. se algumas, esposadas por Hovelacque, sofreram refutação, uma houve que, decerto por ter raiz em passado mais longínquo e conseqüentemente, não estar adstrita ao superficialistmo disso que em todos os tempos se batiza com o nome pomposo de “espírito moderno”, representa ainda agora conquista cujos fruto- são de elogiar-se: as famílias de palavras.

O agrupamento de palavras em famílias. processo assás vantajoso para os estudos de etimologia e de semântica, resultou do progresso das pesquisas de filologia comparada.

Em verdade, assim como os membros de determinada família se reconhecem, quer por traços fisionômicos, quer por antroponímicos, assim os vocábulos, embora diversificados pela acepção que o uso lhes imprimiu através dos anos, trazem certos caracteres capacitantes de se lhes recorthecer a gênese.

A árvore geliealógica do verbo latino “docere”, “ensinar”, prendem-se ” doctus”. sábio: “doctor”, mestre; “dotrina”. ensino; “documentuim”, lição; “docilis”, que se deixa instruir; “docilitas”, aptidão para aprender. A essas palavras, apesar de trazerem substrato identifieante, o decorrer dos dias imprimiu desvios de sentido. Nenhuma delas, porém, sofreu a ampliação que se nota em “doutor”.

O nosso “doutor” era o designativo da pessoa que ensinava, tanto que na raiz tem relação com o verbo grego de que se origina “didática”. Dali tirou a Igreja o ” Ecclesiae doctor”, qualificação dada a alguns santos padres, autores de doutrinas autorizadas. Bem por isso. quando se fala em “doutores da Igreja”, vem á lembrança o primitivo sentido do vocábulo. Que era tão somente essa a sua acepção ho século XV resulta claro do texto da “Crônica da Ordem dos brades Menores”, publicação devida ao labor de José Joaquim Nunes:

“e que os fraires induzessem em nos sermõcs ao poboo que em nas cotnpletas. tangendo a campãa, saudasem alguuas vezes a Virgem Maria, por que he opénion de alguns solennes ” doctores” que em aquella ora por o angeo ella fora saudada.” (vol. II; 187).

Ora, ao que se dava ao mister de ensinar cem feria-se o ser versado em determinado ramo de saber a ponto de podei ministrá-lo. Tanto é isso verdade que as universidades passaram a conferir o grau acadêmico “Doctoris academica laurea ínsignitus”. Daí naturalmente o ter o termo ampliado o sentido, de “mestre” para “quem sabe muito”‘, ilação fácil de tirar-se deste trecho, da mesma era, extraído do “Esopete”:

“Per esta hestoria ho “douctor” nos demonstra que nós nom devemos d’ajudar os maaos homens” (ap. J. J. Nunes, Crestomatia Arcaica. 74).

Por aquela época, o designativo de quem se aplicava à medicina era “físico”. Na citada “Crônica” lê-se:

“O ser de Deus frey Cristovam, estamdo em Martelo, vyo dous assi como ” físicos” chegar-se ao leito de huum emfermo… ” (op. cit., 305).

Chamar “físico” ao ” médico” foi dos séculos XV e XVI, como é de ver no ” Auto do Físico” de Jerônimo Ribeiro e na ” Farsa dos Físicos” de Gil Vicente, composições onde muita vez “doutor ” substitue “físico”, como neste passo de Jerônimo Ribeiro:

“Ora. Mamede, vem ca. Aste de fengir doutor,”

Em 1563, já a palavra denotava de signação honorífica ao invés de profissão; do frontespício do livro de Garcia da Orta, “Colóquios dos simples e drogas e cousas medicinais da Índia” encontra-se ” compostos pello doutor Garcia d’Orta, físico del-rey nosso senhor”. Ali está o titulo “doutor”, ao lado da profissão ” físico”.

Também ao jurista, ao advogado, já nessa época se dava o nome “doutor”, segundo observa João Ribeiro, na “Seleta Clássica”, ao anotar um trecho de Francisco de Morais. Nos séculos anteriores entretanto, o seu designativo era “sábio”; é o que se infere deste pedaço das ” Flores de Dereyto”, do século XIII:

“e nõ consentades que seyan a par de uos omées nenhuus senô os alcaldes ou os ” sabyos” que ouçan os preytos uosco” (ap. J. L. Vasconcelos, Textos Arcaicos. 38).

Que foi no século XVI que a palavra “doutor” se firmou como denominação honorífica prova ainda a expressão popular “doutor da mula ruça”, com que o povo ridicularizava o que afetava erudição que não tinha. Esse modo depreciativo de dizer, até agora usado entre nós, aparece em obras daquele tempo, quais as do poeta Chiado e o “Anatômico Jocoso”.

Em suma, a palavra “doutor” perdeu a acepção original, transferida para “douto” em outra época, onde com a definição que lhe emprestava, em 1842, Francisco José Freire, nas “Reflexões sobre a língua portuguesa”: “o que sabe as ciências e as artes com perfeição ” capaz de as ensinar”.

No Brasil o título “doutor” tomou amplitude de tal monta que chegou a motivar o vocábulo “doutorismo”. E essa amplificação, por certo, deve datar daquele período a que, alude Gilberto Freire, — época em que se formou ” um novo poder aristocrático, envolvido nas suas sóbre-casacas e nas suas becas de seda preta”, a aristocracia dos doutores, — quando, á nobreza de títulos de família, veio superpor-se a de títulos de saber.

NELSON FOOT (Correio Popular. São Paulo)

(in Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, nº 18, Rio de Janeiro, 1945)



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